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Como Portugal se tornou um dos principais centros de tecnologia da Europa

Incentivos d

Foto: divulgação

Insentivos do governo, expansão da rede 5G e melhora da infraestrutura integram a receita que transformou o país em berço de startups


Pioneiro na adesão à filial do Porto Digital do Recife em Aveiro, no centro de Portugal, o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar) conseguiu um grande contrato em menos de seis meses. O instituto fechou negócio com a gigante portuguesa Sonae MC para lançar 66 novos produtos e serviços com tecnologia 5G nos próximos dois anos.


É um entre milhares de exemplos de como Portugal se reinventou como um dos principais centros tecnológicos do mundo, estratégia que atrai brasileiros desde o primeiro momento. Ao criar incentivos e virar berço de startups, o país deixou no passado a imagem de instabilidade causada pela crise econômica do início da década, amenizou a falta de mão de obra digital e se manteve como referência em inovação na Europa.


Foram estes fatores que levaram o Porto Digital do Recife a abrir uma filial em Aveiro, inaugurada em outubro em um espaço ainda provisório. A anunciada popularização da rede 5G a partir de 2024 e autoestradas que conectam as demais cidades ao Porto e Lisboa foram o impulso definitivo para a internacionalização de dezenas de empresas e executivos, como Deric Guilhen, diretor executivo do Cesar em Portugal.


— Chegamos em abril e tínhamos uma expectativa mais lenta. Mas fomos contratados agora com base em um consórcio da operadora Nos com a Sonae. Eles estão desenvolvendo soluções tecnológicas para o 5G na área de saúde e varejo. Nosso objetivo no processo será identificar startups e captar. Quase uma incubadora, porque vamos ajudar no funil e validar modelos e negócios de sistemas — explicou Guilhen.


A consolidação do 5G favorece todo o ecossistema digital e ajuda a acelerar a sonhada descentralização pretendida pelo governo de Portugal. O país que é sede do Web Summit quer provar que o tecido da inovação cobre todo o território e não se resume à capital, que sofre com a alta do custo de vida e dos aluguéis.


“Só este primeiro projeto do Cesar implicará na necessidade de termos no Porto Digital condições e espaços para podermos acolher mais de 60 startups ao longo dos próximos dois anos”, disse em nota João Barbosa, gerente em Portugal do Porto Digital Europa.


Nômades digitais

O Web Summit, que terá sua próxima edição em novembro, é a parte mais vistosa da Estratégia Nacional para o Empreendedorismo Startup Portugal, criado em 2015, quando Lisboa virou sede do maior encontro tecnológico da Europa.


Depois, quando o contrato foi renovado em 2018 por mais dez anos, o governo deu nova embalagem à medida e rebatizou o programa de Startup Portugal+, atraindo empreendedores, nômades digitais e big techs.


A conferência chegou a ser exportada para fora da Europa e teve sua primeira edição brasileira neste ano, no Rio.


Para Rui Aguiar, professor e pesquisador do Departamento de Eletrônica, Telecomunicações e Informática da Universidade de Aveiro, mais do que reinvenção, Portugal passou por uma transferência de conhecimento em menos de dez anos:


— É verdade que houve aposta estratégica na tecnologia e grandes investimentos, com programas financiados pelo governo e indústrias. Eu só não chamaria bem de reinvenção porque as competências já existiam. O que houve foi maior capacidade de transferência de conhecimento.


Naquela fase, segundo ele, foi crucial a ligação entre universidades e empresas para o aumento da capacidade de disseminação das ideias, para absorver na prática o que era discutido na academia. O resultado, ao longo dos anos, foi a chegada de empresas como Google e Bosch.


— Não vem à cabeça das pessoas que o departamento mundial de tecnologia da Bosch está em Aveiro. As pessoas nem sabem. A imagem lá fora é que tudo está em Lisboa. O que está é o poder decisório, como se fosse o Distrito Federal — disse Aguiar.


As operadoras de telefonia estabeleceram um prazo até fim de janeiro de 2024 para a gratuidade do serviço 5G, que funciona na maioria dos telefones numa fase considerada experimental. Depois, será cobrado um adicional. Segundo Aguiar, a taxa de crescimento da adesão paga será superior ao 4G.


— Levamos algum tempo para chegarmos a um milhão de usuários de 4G e no 5G será mais rápido, porque tem um componente promissor de suporte à indústria. É uma ferramenta vital, de transformação da tecnologia para as empresas — declarou o professor.


Presidente do Porto Digital do Recife, Pierre Lucena concorda. Para ele, o 5G é o ímã para as empresas que ele pretende atrair para o empreendimento em Portugal.


— Isso é fundamental para as empresas de base tecnológica que queremos atrair, especialmente os institutos de ciência e tecnologia como o Cesar, que trabalham fortemente com a parte móvel e outras tecnologias que estão surgindo — resumiu Lucena.


Escala global

A aposta para a próxima fase da inovação em Portugal é que o país se consolide como um centro de expansão para as empresas. A estratégia é catapultar as ideias de produtos a nível global, segundo explicou Cristinna Araújo, diretora da portuguesa My Euro Business.


A executiva lançou no Brasil o primeiro programa europeu para acelerar a internacionalização, projeto que pode ajudar as empresas a lidar com a burocracia portuguesa.


— Portugal está se consolidando como um hub para expansão global. Se uma empresa possui um produto ou serviço que seja de interesse global, é escalável e de alguma forma contribui para a sustentabilidade do planeta, o governo pode oferecer apoio de diversas maneiras — disse Cristinna.


Segundo ela, os subsídios são diversos e distribuídos em diferentes programas ou via investimento direto. Vão desde a montagem da área produtiva ao apoio na contratação de profissionais altamente qualificados e incentivos para pesquisa e desenvolvimento.


Cristinna cita como exemplo a startup brasileira EasyAim, que desenvolveu um simulador para treinar profissionais em situações de defesa contra ataques terroristas:


— Através do apoio para pesquisa e desenvolvimento, eles receberam um investimento de € 1,1 milhão (R$ 5,8 milhões). Após a conclusão bem-sucedida do simulador, receberam um adicional para marketing e expansão comercial. No total, a empresa recebeu cerca de € 2,6 milhões (R$ 13 milhões). Em quatro anos, expandiu para cinco países e o governo português virou um de seus clientes.


Fonte: O Globo

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